Apresentação das linhas de pesquisa Estrutura do NADD
   
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APRESENTAÇÃO

Em suas formulações mais avançadas, o pensamento contemporâneo acata a idéia segundo a qual as mais ricas interpretações da realidade advém de enfoques metodológicos que ultrapassam os limites das abordagens disciplinares e estabelecem diálogos e articulações entre variados campos do saber. Seja nas ciências da natureza, ou com maior ênfase nas ciências humanas, tem-se a perspectiva multi e interdisciplinar como uma orientação básica a ser perseguida hoje.

A estrutura departamental do trabalho acadêmico na USP dificulta por vezes o estabelecimento de interlocuções entre os tradicionais campos disciplinares, o que acaba por exigir a proliferação de formas novas de associação e cooperação entre linhas de pesquisa variadas e diferenciadas. Os Núcleos de apoio à pesquisa apareceram nesse contexto como tentativas institucionais de superar as limitações mencionadas. Contudo, alguns deles, ao verticalizarem sua vocação temática acabam criando - pela demasiada especialização - novos limites ao trabalho multidisciplinar.

A presente proposta pretende criar um núcleo que aborde uma temática assumidamente ampla, centrando sua inovação não num recorte por assunto, mas pela diversificada formação de seus participantes. A delimitação inicialmente estabelecida é a do universo das ciências humanas, tendo como horizonte geral de investigação as complexas e múltiplas relações entre democratização e desenvolvimento, processos contraditórios que parecem conhecer um profundo divórcio em nossa atualidade. Nesse sentido, nosso projeto básico é pensar projetos alternativos para o país.

JUSTIFICATIVA

O processo de globalização das relações econômicas em curso realiza-se com níveis de exclusão (social, local, regional ou nacional) de grande magnitude. A seletividade espacial dos grandes capitais, a fluidez do hot money, o ritmo das inovações técnicas, são componentes da nossa época que exponencializam as desigualdades entre povos e grupos sociais. Tal situação, quando vivenciada na periferia da economia-mundo, implica numa sociabilidade que associa os dilemas da "supermodernidade" com uma herança colonial pré-moderna, a insegurança contemporânea com demandas sociais próprias do liberalismo clássico.

O "viver em colônias" se repõe sob novas formas no mundo globalizado. A grande internacionalização da economia brasileira não rompeu os laços da dependência, nem resolveu a questão social do país. A exclusão social do padrão atual de reprodução da economia aponta para um cenário politicamente preocupante num futuro não tão distante, caso formas de cooperação entre o crescimento econômico e o desenvolvimento social não sejam rapidamente construídas. Enfim, novos projetos de nação necessitam ser elaborados e discutidos. A emancipação nacional possível em muito se escora nesse pressuposto, que tem nos cientistas e intelectuais importantes artífices.

A construção de um projeto nacional envolve a articulação de um profundo conhecimento empírico do país (em suas potencialidades e deficiências) com o conhecimento dos mecanismos de reprodução do capitalismo avançado (os ritmos e processos internacionais em curso) e com o conhecimento prático do funcionamento da vida política brasileira. Só na confluência de tais vetores é possível traçar um diagnóstico que aponte medidas viáveis para a democratização progressiva do Brasil.

O papel que as universidades podem e devem desempenhar na construção desse projeto não é pequeno, estando no momento tais instituições muito aquém da contribuição que podem fornecer para um debate político sobre os destinos nacionais. A universidade pública, como caixa de ressonância da sociedade civil, deveria acompanhar de modo mais sistemático a formulação e condução das políticas públicas e da ação governamental em geral. O diálogo governo-sociedade tem no ambiente acadêmico um fórum privilegiado de realização acima de interesses políticos imediatos e de óticas particularistas. Uma discussão supra-partidária, por exemplo, pode ser implementada sem dificuldade no meio universitário.

Uma rica discussão dos temas nacionais implica em bases filosóficas sólidas, no conhecimento histórico das experiências sociais (a historicização da vida política do país), na exata espacialização dos processos e dos planos (com o conhecimento geográfico adequado de nossa formação territorial), na compreensão sociológica da dinâmica social vigente, e na politização das propostas e projetos (examinando suas viabilidades políticas). Assim, concorre a tal debate reflexões e pesquisas oriundas de diferentes campos das ciências humanas e da filosofia, e urge conectá-las num diálogo comum, prospectivo.

A pesquisa inter e transdisciplinar demanda como matéria prima o conhecimento acumulado nos vários campos disciplinares. Daí a necessidade da união das abordagens da Filosofia, da História, da Geografia, da Antropologia, da Sociologia, da Economia Política e da Ciência Política, em empreitadas teóricas comuns, centradas nos mesmos temas e objetos. A articulação entre democratização e desenvolvimento revela-se na atual conjuntura como um destes nexos temáticos que podem gerar grandes contribuições para a compreensão da sociedade e da dinâmica social brasileiras.

Além da diversidade das especialidades, o projeto em tela requer também uma diversidade de perspectivas intelectuais, podendo acolher tanto pesquisas pontuais sobre fatos e questões contemporâneas quanto estudos de alta elaboração teórica acerca de temas significativos, tanto diagnósticos do presente quanto reconstruções historiográficas. No plano da teoria também não se prenderá a posturas rígidas de escolas, a modismos metodológicos, e a perspectivas unidimensionais ou mainstreams de qualquer disciplina. Aliás o tema da diversidade será uma das preocupações centrais a nortear as atividades do NADD. Esse tema torna-se, nessa virada de século, central para a reflexão política, sendo fundamental não só para a preservação da liberdade como também para a própria capacidade de inovação dos seres humanos. Enfim, trabalhar-se-á tendo a variedade de enfoques como um valor em si, vendo a pluralidade de perspectivas como elemento positivo para o avanço da reflexão coletiva.

A Universidade de São Paulo, em particular, tem a obrigação de responder às demandas e aos problemas do país, não apenas gerando soluções tecnológicas para o desenvolvimento nacional, mas também ajudando a canalizar tal desenvolvimento para a elevação da cidadania e a promoção do progresso social. O objetivo da democratização deveria inclusive se sobrepor à própria meta do crescimento econômico. O estudo articulado destes processos significa um compromisso com o país, e a ligação entre o estudo científico e o compromisso acadêmico (logo ético) é sobretudo necessária em países como o Brasil onde é forte o elitismo e a tradição autoritária. Aqui o estudo científico envolve, como em toda parte onde a liberdade é frágil, uma forte consciência da responsabilidade dos intelectuais.

Desse modo, a proposta do NADD busca associar o pluralismo metodológico e teórico com uma orientação unitária de pesquisa que tem por meta a iluminação de orientações para um novo projeto de nação, mais solidária e democrática. Várias especialidades, vários tipos de estudos, vários enfoques, irmanados num compromisso com o próprio objeto: a relação entre a democracia e o desenvolvimento. Democracia entendida como uma cidadania plena, com direitos políticos e econômicos, justiça social e liberdade. Desenvolvimento visto como sustentável, isto é, ambientalmente correto e socialmente justo. Enfim, pretende-se gerar uma reflexão sobre a utopia possível no Brasil real.

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